domingo, 21 de janeiro de 2024

Me lembro com perfeição da sensação quando escolhemos e trocamos o sofá 

Quando nos endividamos pela tv nova

Da vez que os suportes de parede para os pratos chegaram e eu só sosseguei quando penduramos todos


Quando escolhi bizentas fotos pra fazer ímã de geladeira

Ou depois de limpar tudo, respirar bem fundo e te perguntar "a casa tá cheirosa, né?"


Guardo a sensação de euforia de quando os lençóis de algodão 180 fios com estampa de borboletas chegaram e eu queria tanto tanto colocá-los na cama logo, tal qual uma criança ansiosa pra usar o novo material escolar, que quase não os lavei antes


Os porta-retratos, os quadros na parede, a cortina rosa no quarto


Lembro do esforço que foi comprar um novo assento para o sanitário e o porta-shampoo do box, porque estávamos sem grana pra nada, mas era algo que faria a diferença


Depois veio a reforma e nunca brigamos pelo piso, mesmo quando eu queria o cinza e você o branco - e o cinza ganhou

O novo vidro pra mesinha de centro, a impressora que dá pra imprimir em tecido porque eu queria tentar uns bordados diferentes


Todos os bordados, com significados escondidos


Os espelhos


Os chaveiros


Os controles do portão eletrônico


A horta, o quintal, o pé de ipê bem pequenininho, sem prazo pra dar flor


Os controles do vídeo game em cima da mesa


A varanda, as plantas, a rede


Os planos, os sonhos, os desejos


O amor - mais que tudo - mais que o mundo


A falta, o choro, a mágoa


A covardia, a deslealdade, o orgulho


A arrogância, a ferida, a solidão 


A mágoa, o ódio, o rancor


O grito, o desespero, o medo


A tristeza, a lágrima, o pesar


O amargor, a dor, o sofrer


A saudade, a saudade, a saudade


O arrependimento, o remorso, o fim


O conformismo, a saudade, a saudade


[...]


sábado, 17 de junho de 2023

Minha criança,

Você ainda não foi concebida. Não sabemos se será um dia. Se conseguirmos, já faz um tempo que temos algumas coisas pra você: roupinhas dadas por pessoas amadas, um caderninho de cartas para cada momento da sua vida, algumas roupas minhas que acho que você pode gostar no futuro. Tenho uma camisola de herança, que penso em usar pra tirar fotos com você na barriga. Barriga essa que, hoje vazia, gasto tempo na frente do espelho imaginando você dentro dela.
Também fantasio com situações onde te responderei suas perguntas tão capiciosas, te verei descobrir o mundo, ensinarei a amar e respeitar a natureza. Imagino dormir com você e sentir o que eu já sei ser o melhor cheiro do mundo inteiro. 
Esses dias, o tempo esfriou. Fiquei pensando em como seria faltar trabalho e passar o dia inteiro com você debaixo das cobertas.
Te imagino brincando com os gatos e com as cachorras, correndo no quintal... Sei que me adianto demais. 
Me pergunto se você gostará de dinossauros, se nascerá com seis dedinhos em cada mão, se herderá o osso da lateral do meu pé ou o mindinho feio do seu pai - espero que não!
Me olho no espelho e tento misturar meus traços aos dele: olhos grandes com uma boca perfeitamente desenhada? Será que essa pintinha vem também? Quais comportamentos você vai manifestar? Teimosia como a minha ou como a dele, já que somos igual e diferentemente teimosos?
Imagino sua vozinha, o cabelinho - cacheado ou liso? -, pequenas mãozinhas, um choro ensurdecedor, qual bobagem repetirei mil vezes pra te ouvir gargalhar...
Quero te contar sobre a sua avó e como ela te amaria mais que tudo nesse universo.
Minha criança, você ainda não foi concebida. Não sabemos se um dia será.
Mas se não for, mesmo que não nasça pro mundo, já está dentro de mim há muito tempo. No meu coração, ninguém pode dizer que você não existe.

domingo, 14 de maio de 2023

Eu duvido da minha existência. Quem realmente pode garantir que estou aqui, se não você?
Eu cresci dentro de você, antes de eu estar lá, você já estava. Meu início. 
Como se você fosse meu próprio deus.

Eu nasci de você. Estivemos intimamente ligadas por um longo tempo. Ligadas fisicamente. Carnalmente. Você me nutriu com o seu próprio corpo. Me manteve. Me viabilizou a vida.

E quando eu respirei pela primeira vez, você estava lá. Você viu. Você ouviu. Você era a única a poder atestar e dar fé disso. Você testemunhou que, um dia, numa terça-feira de agosto, às 20 horas, eu existi para além dos seus sonhos de infância. Eu cheguei ao mundo e você estava me esperando, por que você sabia que eu viria, tão forte e tão fundo dentro de si própria, que ninguém jamais ousaria contestar que eu existi.

Porque você viu.

E agora, sem você, a única pessoa que poderia afirmar isso com certeza indubitável que eu não sou uma fantasia, um delírio coletivo, um engano da realidade - eu sinto que a qualquer momento eu posso desparecer como poeira, que me esquecerão como a última música da temporada, que não haverá ninguém pra dizer "ei, eu a vi chegar!" e isso bastará, porque você é o meu início e só você viu minha estréia.

Eu vim de você, a partir de você. Vim pra você e nunca serei pra ninguém o que fui pra você.

Você. Minha primeira percepção de um mundo inteiro. Aprendendo a viver por fora depois de viver 40 semanas por dentro.

Meu início.
Comigo até o meu fim.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Abro os olhos e vasculho meu coração. 
Onde você está?
Escondida no lugar mais óbvio.

domingo, 7 de maio de 2023

Devagar - e rápido - nossas músicas começam a empoeirar, as cores começam a esmaecer e o dialeto fica esquecido.
Pensei que teríamos mais tempo. Eu queria que tivessemos mais tempo.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Penso que, no passar dos anos, mais perdemos que ganhamos pessoas.
As ausências passam a nos atravessar, de forma dolorosa e inevitável.
Românticas, fraternas, maternas...
Cada ausência que se instala, tira um pouco de mim, como se vários potes fossem deixados vazios no lugar.
Perco os olhares, as piadas, os segredos.
Perdi o carinho, o toque, meu nome pronunciado de forma única.
Nenhum "Mari" jamais foi igual ao outro.
São tantas faltas...

Inclusive de você, que eu sei que veio aqui por também sentir a minha. 

domingo, 2 de abril de 2023

Naquela noite em que não dormimos e a inquietação tomou conta dos nossos corpos quando não houve posição confortável nem toque apaziguador somente o lateJar da vontade sem descanso

Quando descemos as escadas em silêncio e ansiedade sabendo o que viria e desejando por isso mais que nunca antes mas menos que na próxima vez

A penUmbra mal iluminava seu rosto no banheiro escuro e os meus olhos entreabertos só eram capazes de ver flashes de você mas na falta de visão meus ouvidos estavam afiados e ouvi até o som do atrito dos seus dedos na minha pele e as batidas do meu e do seu coração se misturavam e me deixavam confusa 

Enquanto você pressionava seu corpo no meu contra a parede e eu senti tanta urgência que não sabia onde te beijar ou tocar querendo ter miL mãos e que todas te alcançassem e te trouxessem pra mais perto de mim ainda que fosse impossível estarmos mais unidas

Mais de uma vez tentei encontrar teus olhos rezando pra que os meus já tIvessem se acostumado com a pouca luz e eu pudesse enxergar o que exatamente eu não sei mas tentando com toda a minha força registrar tudo e nunca esquecer 

E nos poucos segundos que decidiAmos respirar  separando nossos rostos mas as mãos entrelaçadas com ternura voltavam a provocar na mais perfeita combinação de lascívia e doçura 

E na hora em que você pediu por mais e eu senti minhas pernas falharem pois sim! eu te daria tudo e mais um pouco de mim ali ou em qualquer outro momeNto

E depois que você chamou meu nome tantas vezes seguidas buscando meus olhos e meus lábios e desesperada para se firmar no meu corpo e foi como se os deuses falAssem comigo numa linguagem exclusiva criada pra mim

E no momento em que meu rio buscava onde desaguar e te encontrou como um mar revolto e só pude me agarrar nos teus cabelos pra não me afogar confessando que te amo e sentindo que mais nada faria sentido além de nós duas naquela noite em que não dormimos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

eu tinha esquecido como era o peito gigante de paixão, da dopamina, do tesão, da empolgação

e também tinha esquecido do peito pequenininho, miúdo, espremido e sufocado depois que acaba

segunda-feira, 27 de junho de 2022


Numa realidade criada dentro da sua cabeça que só faz sentido pra você

Com releituras distópicas de eventos irreais

Com distorção de diálogos que nem sequer existiram

Com demandas impossíveis

Tomando tudo o que pôde

Pressionando cada vez mais por mais

Exigindo cada vez mais

Me obriguei a te compensar por tudo o que não teve

Dando pedaços de mim mesma

E

Nunca

Bastou

Nem nunca bastará

E nada tem a ver com amor



domingo, 15 de maio de 2022

Às vezes, num descuido ou num movimento mais brusco, o véi cai dos meus olhos. E vejo com clareza o que gosto de ignorar. Nesses momentos, nada faz sentido. Apresso-me em colocar o véu outra vez. Mas tem sido mais trabalhoso.

sábado, 26 de junho de 2021

8 da noite. Os moradores do pequeno vilarejo que, em outros momentos ficam até 10 da noite proseando na calçada, compartilhando tereré - em dias frios, chimarrão - já se guardaram. No silêncio profundo, é possível que se ouça o barulho do ferro dos trincos se fechando, de travessas de madeira cobrindo as janelas, cadeados sendo trancados.
Não é a violência que preocupa. A pacata vila não tem os problemas de cidade grande. O único problema do lugar são noites como essa.

As luzes das casas estão apagadas, todos querem passar despercebidos. Exceto uma pessoa. Nessas noites, há 13 anos, seu Moacir leva a cadeira para fora, se senta, acende o cigarro de palha e espera. E espera. Espera sabendo o que esperar.

O relógio marca meia noite. Bem longe, na mata fechada, se ouve o uivo. Seu Moacir respira melancólico, enrola mais um cigarro de palha, acende, traga e espera. Sabe o que vem. Todas as noites como essa, de lua cheia, a lua mais alta no céu, ele repete o mesmo ritual.

Os outros moradores acham que ele é corajoso, mas não contestam. Todos sabem a razão de ele estar ali e não é problema de mais ninguém. Só haverá sossego outra vez quando seu Moacir conseguir cumprir a sua missão.

Ele ouve os passos de quem se aproxima, passos velozes, vem correndo, em quatro patas. Seu Moacir se levanta e caminha em direção ao bicho que vem correndo. Se encontram em frente à velha igreja da cidade. O animal pára e se aproxima devagar. O olhar é raivoso, duro, penetrante. Os olhos redondos, escuros como duas jabuticabas refletem o brilho da lua prateada. O rosnado corta a noite. É grosso, um aviso para que não se aproxime mais. Nas residências, nem todos dormem. Aguardam o desfecho dessa história.

Seu Moacir não se abala, permanece caminhando em direção à besta. Olha para ela num misto de ternura e profunda tristeza. O bicho arreganha ainda mais os dentes e avança um passo. Seu Moacir pára diante do  bicho e pergunta baixinho "até quando?" O animal o olha curioso, é como se houvesse entendido. O homem ousa mais um passo e o bicho recua. Não há intenção de domínio da parte do velho, não há interesse em subjulgo. Ele quer se aproximar.

O velho Moacir sente um lampejo de esperança. Quem sabe seja hoje! Há tantos anos buscando a mesma coisa, essa é a primeira vez que chega tão perto. Ele joga a bituca do cigarro no chão, tranquilamente. Seus movimentos nunca são súbitos, pois não quer assustar e, também, não há pressa, ele pode esperar pelo resto da vida.

Quando Moacir avança outro passo, escuta um grito de homem, chamando a atenção, vindo atrás dele. Um homem alto, usando botas e um chapéu, sai da sombra e para embaixo da luz fraca do poste. Ele empunha uma arma e seu Moacir se assusta.

- Não faz nada! - Moacir grita de volta. Com a movimentação estranha, o bicho voltou a se ouriçar. Os pêlos do dorso em pé, demonstrando hostilidade. Rosnava ainda mais alto, arreganhava ainda mais os enormes dentes afiados. 

Como sempre, essas coisas acontecem muito rápido. O desconhecido atirou na direção do bicho quatro vezes. Seu Moacir pouco pôde fazer a não ser correr na direção do homem de botas e chapéu, se jogando em cima dele.

No terceiro tiro, o animal gritou dolorido, magoado, ferido. Fora acertado. No quarto tiro, seu Moacir sentiu a bala lhe atravessar à queima roupa. Em casa, as pessoas procuravam entender o que estava acontecendo, olhando pelas brechas da porta.

O desconhecido, o homem que seu Moacir não sabia quem era - e não teria como saber mesmo - veio de outro estado. A história do bicho e seu Moacir corria longe, mas muito mal contada, e o homem achou que ele teria de que resolver isso do jeito que ele conhecia: matando. Um grandioso intrometido, isso sim!

Seu Moacir, baleado e sangrando muito, se arrastou até o animal caído, que respirava pesado, arfando, o olhar fixo no horizonte. Sem mais nada a perder, tocou a besta, agora inofensiva, e lágrimas lavavam seu rosto. A dor não era física. Ele havia falhado.

O homem de botas e chapéu não entendia o que diabos acontecia ali. Achava que seu Moacir estava em perigo, achou que estava ajudando, achou que matando o lobisomem que atordoava a cidade, ganharia fama e respeito pela região.

Seu Moacir e o lobisomem pararam de respirar juntos, ambos baleados, caídos lado a lado.
As pessoas começaram a sair de suas casas e se aglomeram em volta dos corpos. Enquanto uns gritavam com o forasteiro, outros faziam o sinal da cruz e desejavam paz. O padre saiu da paróquia, lançou água benta sobre os cadáveres e deu a extrema unção.

O visitante indesejado estava a ponto de ser linchado quando o padre se colocou entre o homem e a população revoltada e lamuriosa. O levou para dentro da paróquia a fim de esclarecer os fatos.

- Há 15 anos, uma moça chamada Alice fugiu da casa dos pais com um outro rapaz. Ficou sumida por um ano. No decorrer desse ano, a mãe da menina morreu por não saber da filha. Pouco tempo depois da morte da mãe, a menina voltou para casa grávida e sem marido. O pai dela, desgostoso pela atitude da menina e a culpando pela morte da mãe, deu-lhe uma pisa, até que ela perdesse o bebê. Possuído pela ira, não se arrependeu, não teve remorso, não acolheu a própria filha e ainda causou a morte do neto. Cego de ódio, amaldiçoou a garota e a mandou embora. A maldição do pai fez a menina virar besta, virou bicho e fazem 13 anos que ela vem pra cá em toda lua. O pai caiu em si e desde então buscava o perdão da filha, sempre esperando por ela. Ali no chão estão pai e filha. E agora descansarão juntos.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Fui à casa de minha mãe. Vários móveis foram vendidos, alguns descartados, outras coisas vieram pra minha casa, outras pra casa dos meninos. A casa está praticamente desmobiliada e nessa altura do campeonato, eu nem sei se essa palavra existe.

 Teias de aranha cruzando as portas, provando que não há mais trânsito entre elas.

O chão empoeirado, com lama já seca, pegadas, mostram que ninguém mais tira os sapatos para entrar, sem pudor de sujar o chão antes limpo com tanto zelo.

A mesa da cozinha não está mais ali. Noutro tempo, servindo café com leite e pão fresco, foi vendida junto com a cadeiras que nem faziam parte do jogo.

Há um lixo entulhado no canto, empurrado porcamente com uma vassoura, apenas para limpar "o meio". Aquele monte de tralha que a gente sempre pensa em jogar fora mas procrastina pois vai que um dia precisa de algo dali.

A área de serviço é a parte mais abandonada. Está suja, com baratas mortas das vezes que jogamos veneno apressados em ir embora logo, aranhas que caíram dentro do tanque e não morreram por não conseguirem subir com suas oito patinhas o material escorregadio da cuba. Um pano de chão que secou embolado mas em outro momento esteve de molho, só que a água de qualquer balde evapora ao longo de quatro meses.

E no varal, uma calcinha. Presa por um único prendedor, garantindo que o vento não a derrubasse, esperando secar para ser vestida naquele corpo novamente. E espera faz tanto tempo que a calcinha já está meio endurecida, empoeirada também, porto de chegada ou partida para teias de aranhas até a parede mais próximo ou o varal vizinho. Uma única calcinha, solitária, que até hoje eu não tinha reparado e fiquei compridos segundos olhando pra ela ali, pendurada, sem tocá-la, sem coragem pra recolhê-lha, pois não há mais armário para guardá-la, corpo para vestí-la.

A calcinha não sabe de nada, de nada. Mas ficou ali, parada num tempo que não existe mais.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Eu tinha muito medo do dia que o algoritmo do teclado do celular entendesse e deixasse de sugerir seu nome depois do "bom dia" ou "boa noite".
Daí a primeira sugestão passou a ser o nome dele. E amenizou um pouco.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Hoje, depois de alguns anos (pelo menos três), vi uma foto sua. Notei que está mais careca e os poucos fios que sobraram, junto com a barba, estão quase completamente brancos.
Notei as rugas nos olhos, notei a pele do pescoço mais flácida, já mais parecida com a pele do seu pai do que com a pele do seu filho. Fiquei olhando por alguns minutos e constatei o óbvio: você tá velho.
Fui invadida por uma sensação de remorso, saudade e raiva. E chorei um tanto. É sempre esse mix. Sempre. Às vezes, tem um pouco de culpa também, mesmo sabendo que eu não sou culpada de coisa alguma.
Você quem escolheu. Quem não me escolheu.
E se hoje te falta brilho nos olhos, como pude notar, se seu sorriso é melancólico e triste, como pude notar, foi você quem quis assim.
Vi as suas mãos evidentemente ásperas, cheias de pequenos ferimentos, grossas e descascando - consequência do novo trabalho - e fiquei com pena. Senti de vontade de te dar um hidratante e aconselhar que usasse luvas.
Mas se ainda não consigo dizer pra você por que não te chamo mais de "senhor", cuidar de você é que não posso mesmo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Carinho

Chegou do trabalho exausta.
Rotina de 7 às 17, ônibus lotado, almoço frio... Coitada.
Mas tudo bem, os dias de glória com certeza hão de chegar.
Jantou, banhou, viu dois episódios da série do momento.
Enrolou mais um tempo e finalmente se recolheu para dormir.
Resmungou sozinha: - Se ao menos eu tivesse um carinho, um cafuné... - e se enfiou debaixo das cobertas, com as luzes já apagadas.

Acordou sorrindo, se sentia extremamente confortável e relaxada, como há tempos não conseguia sentir. Pela primeira vez em vários meses não pensou em levantar correndo, atrasada, e se arrumar pra trabalhar. Quis ficar ali, deitada no quentinho cama, entre as cobertas, aproveitando o afago gentil e leve no cabelo.

Até lembrar que morava sozinha.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

- Mãe, me deixa voltar pro útero? - Supliquei assim que ela atendeu o telefone.
O choro que vinha reprimindo há dias não aceitou minha ordem de que não viesse. Eu precisava de colo, precisava de conselho, de alguém que me consolasse e atendesse.
Precisava da minha mãe.
- Você não cabe mais, - ela riu - mas ainda tenho colo.
E assim, depois de uma hora inteira de ligação, eu pude seguir meu dia, de cabeça erguida, confiante, mais serena, mais tranquila e crente de que as coisas podem melhorar.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Idealizei toda a ocasião do nosso pacto de suicídio.
Eu já tinha em mente pra quem enviaria cartas de despedida, mas ainda não sabia como queria morrer. Só sabia que queria que fosse fácil, rápido e, principalmente, indolor. Chegamos à conclusão: opióides injetáveis.
Pra que seja memorável, ainda que eu não saiba pra quem, planejei deixar uma carta codificada, sem tradução, sem que significasse algo. Somente pra confundir.
E se a intenção é confundir, decidi que usarei um vestido de gala azul, longo, brilhante e alugado, bem maquiada, bem bonita. Ele vai usar fraque.
Estarei usando somente um pé dos meus sapatos, que será bota de cowboy. Ele estará usando um pé de meia de cada cor.
O cenário será um hotel bem chinfrim, conhecido aqui como ponto de prostituição. Why not?
Pensei em deixar um mapa e dicas espalhadas pela cidade, numa espécie de caça tesouros que levará ninguém a lugar algum. Isso vai deixar muita gente louca, já que adoram uma teoria da conspiração.
Falei pra reativarmos nossos blogs. Os mórbidos adorarão ler o que os mortos escreveram, tentando fazer ligação entre nada com coisa nenhuma também.
Poderíamos desenhar símbolos nas paredes do quarto do hotel, tudo sem significado. 
Pensando em não deixar os gatos sozinhos no mundo, injustamente os incluí no nosso pacto. Que explicação dariam pra três gatos mortos, um casal vestido elegantemente, num pardieiro todo rabiscado e sem sentido?
Apenas pra fazer da nossa morte um show, atiçar a curiosidade, criar uma lenda. Nada terá ligação com nada. Apenas nosso desejo de morrer. E que mal se divertir uma última vez?
Planejei em todos os detalhes e lhe passei o plano.
Ele disse:
- Fazem 40 minutos que você vem idealizando pra sua morte o reconhecimento que não tem em vida. Você não quer morrer. Você quer um propósito.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Imaculado tesão
Que vem e que vai de tempos em tempos
Da paixão que revive
Dos dedos que me tocam
Dos arfares que me rouba
A vontade que consome
O ato que não consuma
No santo pecado
Do desejo latente
A negação veemente
E a clara memória
Que insiste em mostrar
O que era pra ter sido e não foi
E agora diz que não foi pois não era pra ser

terça-feira, 16 de abril de 2019

Garotinho

Juntos há pouco mais de duas semanas, chegara a hora de conhecer seus amigos. Marcaram um almoço de domingo, todos reunidos de uma vez para, enfim, conhecerem quem era a famosa garota que conseguiu a façanha de, finalmente, fisgar o peixão que meu namorado é. Pelo menos é assim que ele mesmo fala, se envaidecendo todo.

Assumo: estava um pouco nervosa. O que eles esperavam encontrar? E se fossem apáticos e antipáticos comigo? Será que meu namorado se esforçaria pra me deixar a vontade ou me enturmar seria um trabalho só meu?
Fui repassando todos esses pensamentos e as regras de etiquetas conhecidas por mim, numa tentativa de fazer o menos feio possível pr'aqueles estranhos para mim e pessoas importantes para ele.

- Ei, se acalma! É só um almoço. Andréia disse que faria lasanha. A lasanha dela é boa que só! Você vai se dar bem com todo mundo, é tranquilo. - apertou minha mão e me deu selinhos repetidos.

Fomos os últimos a chegar e todos - dois casais - já estavam na varanda a nossa espera. Quando notaram nossa presença, todos os olhares pousaram em mim e senti meu rosto arder de vergonha. Poucos segundos depois (que pareceram uma eternidade) os amigos se aproximaram me dando as boas vindas, dizendo que logo o almoço estaria servido.

Depois disso, foi bastante tranquilo. Fui bem recebida, fiquei realmente a vontade e tomamos algumas cervejas. Não fiquei bêbada, mas fiquei alta, e sabe como é a loura gelada: ela entra, ela precisa sair.

- Onde fica o banheiro?
- Entra pela área de serviço, passa pela cozinha, primeira porta do lado esquerdo. - Andréia, a dona da casa, respondeu me indicando a direção.

Quando me levantei, percebi que estava um pouco alta demais. Meus passos estavam vacilantes e caminhei devagar pra não parecer uma bêbada doida trocando as pernas e ainda correr o risco de cair na frente de todos aqueles estranhos e meu novo namorado.
Estávamos do lado de fora e a casa era bastante grande. Atravessar aquela varanda enorme, área de serviço e encontrar o banheiro num lugar totalmente desconhecido por mim, seria uma tarefa fácil se não estivesse ébria.

Quando coloquei meus pés nas área de serviço, um garotinho de cerca de 2 anos, usando fralda descartável e segurando uma fralda de tecido na mão estava lá. A princípio, tomei um susto pois não esperava encontrar alguém. Não era nada demais, devia ser filho de alguns dos casais e estava dormindo quando cheguei.
Ele gesticulou um "vem cá" com a mãozinha que não segurava a fralda de pano e saiu andando. Comecei a segui-lo e reparei o quanto a casa era escura por dentro. Pouquíssimas janelas, mal iluminada. Apesar de estar um dia de sol intenso, a casa era sombria.
Isso me incomodou, mas foi totalmente pessoal. Gosto muito de boa entrada de luz solar, paredes claras e janelas grandes.

Junte esse pequeno breu, ao fato de eu estar sem meus óculos de grau e um pouco de álcool no meu sangue. Conseguia enxergar bem pouco mas o garotinho seguia caminhando na minha frente e, às vezes, olhava para trás como que para confirmar se ainda o estava seguindo. Claro que eu estava! Se eu tinha chance de ser amiga de uma criança, não a disperdiçaria, e quase me esqueci que precisava fazer xixi e não prestei atenção no caminho.
O menino parou e apontou para uma porta.
- Você quer que eu abra? O que tem aqui?
E então abri. Era o banheiro! Sorri, agradeci ao bebê, entrei e fechei a porta.

Quando saí, alguns minutos depois, o efeito do álcool estava bem mais ameno. Olhei em volta, vi a cozinha e ouvi a voz da turma lá fora e encontrei a saída. O menininho já tinha saído também.

- Tu demorou! Conseguiu achar o banheiro? - Andréia perguntou.
- Sim! O menininho me mostrou o caminho, me levou até o banheiro.
- Que menino? - meu namorado perguntou estranhando.
- Uai, acho que a gente acabou acordando ele com o barulho. Quando entrei, ele tava na área de serviço e me levou ao banheiro.
- Não tem nenhuma criança nessa casa. Não tem mais ninguém além de nós.
- Eita!

segunda-feira, 15 de abril de 2019

bebedeira

Não era pra ter sido assim. Eu só queria me divertir, relaxar depois de uma semana estressante (como todas têm sido há tempos). Mas eu não sei mais beber. Acho que nunca soube.
Sempre que bebo, sigo um roteiro próprio, que não é ensaiado, mas sempre acontece igual. Nas primeiras doses, meus músculos relaxam e meus braços pesam; as pernas amolecem e eu sinto que estou bastante relaxada.
Depois, se continuo a beber, minha visão começa a me enganar um pouco. Perco a noção de profundidade e poderia parar por aí se tivesse parcimônia. Logo depois chega um rápido momento que meu parceiro reconhece bem: eu o olho diferente, o beijo diferente e sinto o álcool me esquentar entre as pernas. Embora eu tenha insistido muitas vezes, ele nunca me toca quando chego nesse estágio. Geralmente é quando ele me aconselha a pisar no freio.
Mas não ontem. Estávamos em casa, vendo um filme, comendo salgadinhos. O que poderia dar errado? Ele não me aconselhou a parar e eu segui bebendo. Dane-se se amanhã é segunda-feira.
Bebi mais um tanto e perdi o filtro.
Sentada no chão da cozinha, enquanto comia dois chocolates a fim de colocar um pouco de açúcar pra dentro, eu disse que queria chorar.
Carinhosamente ele me sentou em seu colo e me tranquilizou pra fizesse isso sem medo, sem segurar, sem julgamentos. Que arriasse toda a carga que venho carregando. E assim o fiz.
Chorei no seu ombro, molhei sua camisa, chorei no travesseiro. Chorei e chorei até dormir.
 
Chorei por causa dos dias nublados que escondem a esperança de um sol de rachar; a falta de perspectiva; medo do futuro; medo do presente e todas as coisas que andam me tirando o sono; ansiedade por não conseguir lidar com os planos a longo prazo; o sofrer por metas não atingidas. Os conflitos familiares; o emprego que detesto; não saber o que fazer dessa vida...

Na manhã de hoje, um misto de tristeza e vergonha pelo vexame, além de uma ressaca leve. Logo veio o acalento "disse pra você bêbada e digo pra você sóbria: sempre estarei aqui e você nunca estará sozinha". Tenho tanta sorte, que nem sei!