terça-feira, 17 de novembro de 2015

Leio

Quando você não está, eu leio suas coisas. É o mais perto de ouvir sua voz e aplacar o mínimo possível de saudade. E não, eu não vou gastar uma ligação com você. Eu nem saberia o que dizer. "Liguei só pra ouvir sua voz." Não. Definitivamente. Não. Me recuso me entregar ao clichês, não consigo, não faz meu tipo. Então eu leio. Te leio. Te imagino. Ouço da sua voz à sua respiração. Ouço seu coração. Tudo na minha cabeça. São coisas das entrelinhas e só eu sei ler.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

vida

Nesta vida, morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício.

(Vladimir M. Mayakovsky)


chuva

Na escuridão da noite, nada se via, a não ser durante as frações de segundo dos relâmpagos.
Ela achava a situação mais excitante e apaixonante ainda. Nunca sabia quando os olhos se encontrariam, que expressão de prazer flagaria.

Viu sorrisos, viu olhos fechados, viu lábios entreabertos.

Cada relâmpago trazia uma nova onda de calor e euforia.
Os corpos quentes e agarrados bloqueavam o frio que a água gelada da forte tempestade trazia.
Os gemidos, abafados pelos trovões e as gotas de chuva que escorriam pele abaixo, faziam jus a quantidade de amor que transbordava no peito.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

cílios

o carinho sútil que seus olhos me fazem na coxa sempre que você deita a cabeça no meu colo e simplesmente pisca

capirotinho


domingo, 20 de setembro de 2015

calor


O calor é insuportável. O quarto é quente e abafado. O contato do lençol na pele faz pinicar. A pouca roupa de pijama incomoda. 
O pobre ventilador não dá conta do recado, embora o ambiente seja minúsculo e a temperatura da noite caia e se torne mais amena, na teoria, e a janela esteja aberta na esperança de uma brisa que nunca vem.
O corpo dela é sempre morno, menos durante a gripe, quando ele esfria. No mais, constantemente morno. 
O dele é quente. Perfeito para os dias frios, quando deitar no peito  nu é absurdamente aconchegante. Quente como o sangue de um cavalo. Febril. Constantemente febril.
Quando se deitam para dormir, é impossível que durmam abraçados, como sentem vontade. O suor escorre pelas dobras das pernas e braços, escorre onde as peles se tocam, se grudam. O cabelo comprido precisa estar preso pra poupar a sensação de enforcamento pelos fios que colam no pescoço.
Ela se encosta na parede fria e ele chuta o cobertor desnecessário pra longe.
Mas para se fazerem presente um ao outro, os pés se tocam. 
Sempre.

sábado, 19 de setembro de 2015


Será que ela está feliz
ou se esconde na trégua
em que não nos falamos?

Eu rezo para não ter paz
no corpo dela.
Sua boca é vinho no inverno,
figo no verão.
Seu olhar fica flutuando sozinho,
a nudez para cima, ondulada
como as linhas de uma montanha.
Expondo-se ao sol
com uma dispersão selvagem.
Não me aproximo. Não a toco.
Sua solidão é exigente
e quer tudo. Menos a sabedoria
para se explicar.

(Carpinejar)



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

decepção

A decepção que eu acho que é sua, na verdade é minha. É só o medo de que você me veja como eu me vejo.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Duas infelicidades
não conseguem dialogar.
Uma pretende eliminar a outra.

Roubo teu passado para abastecer
minha memória escassa e estreita.
Sou obrigado a me inventar 
para competir com o que viveste.

(Carpinejar)